A fazenda brasileira que produz o azeite mais premiado do mundo

Lucídio Goelzer voltava de mais uma viagem à Europa com a mesma sensação. Lá, ele provava azeites extraordinários — complexos, frescos, com camadas de sabor que ele não conseguia descrever direito, só sentir. Aqui no Brasil, as mesmas marcas chegavam diferentes: mais velhas, mais planas, uma decepção atrás da outra. Um dia, ele decidiu parar de reclamar.

O que nasceu como um projeto para “ter um azeite honesto para a família” — nas palavras do próprio Goelzer — se tornou, 25 anos depois, o azeite mais premiado do mundo.Em abril, o Frantoio, rótulo da Estância das Oliveiras, fazenda localizada em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre, conquistou a nota 100/100 no European International Olive Oil Competition (Eiooc), em Genebra.

Foi a primeira vez na história do concurso que um azeite atingiu a pontuação máxima — e a decisão foi unânime entre os jurados. Lucídio Goelzer percorreu olivais em Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Turquia, Argentina, Chile e Peru antes de plantar as primeiras árvores em Viamão. Queria entender o que os grandes produtores faziam de diferente.

A região que escolheu fica a 110 metros de altitude e próxima ao litoral gaúcho — a brisa do mar interfere no terroir, termo francês que se refere ao conjunto de características naturais do solo e do clima que moldam o sabor das produções.

A produção comercial só começou em 2019. Sete anos depois, o Frantoio bateu um recorde que nenhum azeite havia conseguido antes.

O filho Rafael Goelzer conduz o negócio ao lado do irmão André Goelzer, que se formou na Itália como mestre lagareiro — o equivalente ao enólogo no mundo do azeite. Foi André quem desenvolveu o método que define a identidade da Estância das Oliveiras: colher a azeitona ainda verde, antes do ponto de maturação convencional.

A escolha tem um custo. “Se eu colhesse azeitona madura, poderia produzir até 30% a mais de azeite. A gente não quer quantidade, a gente quer qualidade”, diz Rafael Goelzer.

colheita precoce eleva a concentração de polifenóis antioxidantes e multiplica as notas de sabor. Azeites de alta qualidade costumam apresentar até sete notas; os rótulos da Estância das Oliveiras têm atingido entre 12 e 14 nas avaliações internacionais.

O intervalo entre a colheita e o processamento é de duas a quatro horas, tempo suficiente para preservar as características do fruto antes que a oxidação comece. De dez quilos de azeitona colhida nesse formato, sai um litro de azeite. Da mesma quantidade de uva, um produtor de vinho obtém entre cinco e sete litros.

“Não existe milagre para um azeite extravirgem de alta qualidade ser barato”, resume Rafael Goelzer. A Estância das Oliveiras acumula mais de 250 prêmios internacionais desde 2019 e chegou a ser classificada como a terceira marca mais premiada do mundo pelo Evoo World Ranking em 2025 — concorrendo com produtores que têm milênios de tradição.

Fonte: gazetadopovo