Café: Hedgepoint corta superávit global para 8,2 mi de sacas com El Niño
O risco de um El Niño extremamente forte reduziu a estimativa de superávit global de café da Hedgepoint Global Markets para a safra 2026/27 de 9,9 milhões de sacas para 8,2 milhões de sacas. A previsão foi divulgada ontem (29) em live realizada por especialistas da casa. A revisão reflete ajustes para baixo na produção de países que já registram padrões irregulares de precipitação, num momento em que a volatilidade dos futuros de arábica dominou o mercado ao longo deste mês.
A magnitude do risco climático ganha contornos mais precisos com os números divulgados nesta quinta-feira: o Centro de Previsão Climática dos EUA estima 81% de probabilidade de que o El Niño atual se torne “muito forte” entre agosto e novembro de 2026, potencialmente um dos mais severos desde 1950, conforme reportado pela Reuters. A Hedgepoint já calcula mais de 70% de probabilidade de o fenômeno atingir alta intensidade no mesmo período.
A turbulência dos futuros de arábica em julho não foi obra de um único gatilho. Segundo a análise da Hedgepoint, fatores macroeconômicos, indicadores técnicos e o posicionamento de fundos foram os principais catalisadores do movimento, com os contratos de arábica rompendo níveis importantes de resistência e médias móveis de longo prazo. A arbitragem também se ampliou ao longo do mês.
O aumento das margens iniciais exigidas pela ICE reduziu a liquidez do mercado e forçou fundos a ajustarem ou encerrarem posições, gerando chamadas de margem adicionais e atividade de cobertura de posições vendidas. Os futuros de arábica setembro (KCU26) encerraram ontem o pregão com queda de 4,01%, pressionados pela fraqueza do real brasileiro, que estimulou a liquidação de posições compradas. O robusta setembro (RMU26) recuou 2,68% no mesmo pregão, conforme dados da Barchart.
Já o catalisador desta quinta-feira foi a intensificação dos alertas de geada no Brasil, com previsões de temperaturas negativas em regiões produtoras de café que impulsionaram os preços da arábica no campo positivo, antes de fechar novamente em queda de 0,49%.
O risco de geada reforçou a sensibilidade do mercado à oferta física num contexto de estoques certificados de arábica na ICE já em mínimas de 2,5 anos, atingindo 274.168 sacas. Os spreads entre os contratos de setembro e dezembro do arábica ampliaram-se significativamente no mês, segundo a Hedgepoint, refletindo preocupações de curto prazo com a oferta física.
O Brasil projeta sua maior safra histórica em 2026/27: o USDA estima produção brasileira de 71,9 milhões de sacas, alta de 14% em relação à temporada anterior, contribuindo para uma produção global recorde projetada em 189,7 milhões de sacas de 60 kg, com exportações de 158,9 milhões de sacas e consumo de 179,7 milhões de sacas, de acordo com dados do órgão americano divulgados em 24 de julho pela Perfect Daily Grind.
O problema imediato, porém, é o ritmo da colheita. As chuvas persistentes em junho impediram trabalhadores de entrar nos cafezais, e em 15 de julho a colheita 2026/27 havia avançado apenas 64% do total, contra 77% no mesmo período do ano anterior e média de cinco anos de 70%, segundo a Safras & Mercado, conforme reportado pela Barchart. A Cooxupé, uma das maiores cooperativas do país, registrava 47,3% de colheita em 17 de julho, abaixo dos 59% de um ano antes.
A Hedgepoint ressalta que o atraso não comprometeu o volume total esperado: a expectativa de safra recorde foi mantida, e a casa projeta que o avanço da colheita nos próximos meses deverá permitir maior fluxo de exportações, o que pode exercer pressão baixista sobre as cotações. O ritmo de vendas, no entanto, segue mais lento do que na temporada anterior, com as exportações de arábica abaixo da média histórica recente.
Fonte: br.investing
