Terras raras e IA colocam Brasil no centro da disputa entre China e EUA, mas país perde chance histórica

Em meio à escalada tecnológica e à rivalidade entre China e EUA, o Brasil ganha relevância ao concentrar Terras Raras, energia limpa e posição diplomática neutra, justamente quando a IA redefine cadeias globais. No entanto, entraves internos impedem o país de transformar esses ativos em desenvolvimento, enquanto a janela de oportunidade se estreita.

“O Brasil, ao se descolar desse mundo geopoliticamente confuso, tende a ter um cenário favorável para atração de investimento direto, já que possui ativos importantes e alguma estabilidade política”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Disputa entre China e EUA pressiona cadeias globais

A corrida por Terras Raras ganhou centralidade porque esses 17 elementos sustentam turbinas eólicas, veículos elétricos, sistemas de defesa e os chips que alimentam a IA. Hoje, a China controla cerca de 60% da extração global e quase 90% do refino, criando dependência estrutural para os EUA.

“Para se armar e conter a China, os Estados Unidos dependem da importação de terras raras fornecidas, majoritariamente, pela própria China”, resume Thomas Wu, economista-chefe do Itaú Asset Management.

Além disso, a tensão em torno de Taiwan, líder na produção de semicondutores avançados, eleva o risco sistêmico. Uma ruptura encareceria custos e aceleraria a regionalização das cadeias. “Um problema maior lá também tem repercussões globais bem importantes”, alerta Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria.

Brasil tem reservas, mas exporta valor baixo

Brasil possui a segunda maior reserva global de Terras Raras, atrás apenas da China, com depósitos de argilas iônicas que reduzem custos e impacto ambiental, especialmente em Minas Gerais.

José Marques Braga Júnior, da Viridis, afirma que “o projeto Colossus da empresa, em Minas Gerais, não tem barragem nem pilhas definitivas de rejeito, representando avanço tecnológico significativo”.

Ainda assim, o país exporta concentrados de baixo valor por não dominar a separação química. Enquanto o concentrado misto vale cerca de US$ 10 por quilo, óxidos separados chegam a US$ 200, transferindo renda e tecnologia para o exterior.

Falta de política industrial mantém gargalos

O principal entrave é a falta de uma estratégia industrial coordenada. A separação das Terras Raras exige tecnologia, escala e investimento contínuo, exatamente o que a China construiu com políticas de longo prazo, como o Made in China 2025.

“Sem uma política industrial coordenada que agregue valor localmente, o país corre o risco de repetir o erro colonial de exportar riqueza bruta”, alerta Alexandre Uehara, da ESPM. Já o Instituto Brasileiro de Mineração reforça que o desafio é transformar a riqueza geológica em desenvolvimento nacional por meio de uma política de Estado.

Energia limpa poderia impulsionar a IA no Brasil

Além das Terras Raras, o Brasil dispõe de energia limpa abundante, ativo crucial na era da IA. Data centers exigem energia e água em escala crescente, e embora o gás natural atenda parte da demanda, fontes renováveis ganham espaço.

O país reúne hidrelétrica e eólica em volumes competitivos, o que poderia atrair investimentos em infraestrutura digital.

Contudo, a falta de previsibilidade fiscal e os juros elevados afastam capital. “Para que o Brasil se beneficie da transformação da IA e de seu potencial geopolítico, é necessário destravar investimentos, oferecendo condições amigáveis e um plano de desenvolvimento”, afirma Luciano Telo, diretor de investimentos do UBS no Brasil.

Fiscal frágil e juros altos travam investimentos

O círculo vicioso fiscal segue como obstáculo. A dívida pública supera 78% do PIB e deve se aproximar de 84% em 2026. A ausência de superávits primários consistentes mantém a Selic elevada, encarecendo o investimento produtivo.

“O prolongamento de juros tão altos gera custos, como a retração do investimento produtivo”, alerta Hugo Garbe, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Além disso, a insegurança jurídica — com mudanças retroativas e disputas tributárias — reduz a previsibilidade. No front externo, a volatilidade cambial pressiona a inflação e dificulta o planejamento de longo prazo.

Janela global é curta e concorrência avança

Enquanto isso, países como Austrália, Chile e Vietnã avançam em cadeias alternativas à China. Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda por Terras Raras deve crescer sete vezes até 2040, impulsionada pela transição energética e pela corrida tecnológica. Assim, o atraso custa caro.

Três frentes para o Brasil agir agora

Para aproveitar a disputa entre ChinaEUA e a expansão da IA, o Brasil precisa agir em três frentes: ajuste fiscal com contenção de gastos, segurança jurídica e estratégia industrial integrada.

A Política Nacional de Minerais Críticos avança no Congresso, mas só terá efeito com execução firme e visão de longo prazo. Sem isso, o país perderá a corrida global, apesar de reunir Terras Raras, energia limpa e relevância geopolítica.

fonte: clickpetroleoegas