Lavoro e AgroGalaxy buscam virar a página com novos donos

No ciclo de euforia da bolsa do começo da década, o agronegócio despontou como uma das estrelas em ascensão com novas empresas bancadas por fundos capitalizados e que representavam uma espécie de nova face desse setor tão fundamental para a economia brasileira.

Poucos anos depois, no entanto, as expectativas de geração de riqueza para seus investidores acabaram frustradas, a tal ponto que duas das maiores redes do setor passaram para as mãos de casas conhecidas no mercado por atuar em situações de estresse financeiro.

AgroGalaxy e a Lavoro, plataformas de revendas agrícolas criadas por fundos de private equity para consolidar o mercado brasileiro de venda de insumos, agora estão sendo assumidas por gestoras especializadas na reestruturação de empresas em dificuldades, em uma categoria de ativos conhecida no mercado de capitais como “special situations“.

A Lavoro, idealizada pelo Patria Investimentos com lojas no país e no exterior, negociou uma recuperação extrajudicial de cerca de R$ 2,5 bilhões com fornecedores, saiu recentemente da Nasdaq e acaba de vender a sua operação no Brasil para a Arcos Gestão e Investimentos.

A AgroGalaxy, da gestora Aqua Capital, entrou com pedido de recuperação judicial em setembro de 2024, com um passivo total próximo de R$ 4,7 bilhões, e hoje é administrada pela Tauá Partners, que tem conduzido a reestruturação da empresa. Desde o IPO, ela já perdeu 98% de seu valor mercado. 

As transações marcam um novo capítulo, de aparente desfecho, de uma aposta outrora ambiciosa da indústria de private equity no setor.

Criados para executar teses de consolidação e ganho de escala, esses fundos acabaram saindo de cena em meio a uma crise que derrubou receitas das empresas e levou ao fechamento de dezenas de lojas pelo país. E que deixou credores e investidores que acreditaram no modelo com perdas.

A reviravolta representa também um desfecho inesperado para um setor que, poucos anos atrás, era apontado como a próxima grande fronteira de consolidação do agronegócio brasileiro.

Início promissor

Em julho de 2021, a AgroGalaxy abriu capital na B3 e captou cerca de R$ 350 milhões para financiar uma estratégia agressiva de consolidação do mercado – ou seja, crescer em market share por meio de aquisições de concorrentes.

A tese que ganhava força naquele momento era simples: concentrar a venda de insumos agrícolas para os produtores rurais. A promessa era consolidar um setor historicamente fragmentado e criar grandes redes nacionais de distribuição de fertilizantes, defensivos e sementes.

A aposta parecia lógica. O agro responde por cerca de um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) do país, e a agricultura está entre os motores dessa engrenagem. Só o chamado complexo da soja – que inclui grão, farelo e óleo – gera mais de R$ 300 bilhões por ano em exportações brasileiras.

Era natural que o mercado financeiro passasse a olhar com mais atenção para o setor.

Naquele mesmo ano, a Lavoro, com respaldo do Patria, comprava revendas agrícolas pelo interior do país. Com mais de 15 aquisições, a empresa formou uma das maiores plataformas de distribuição de insumos da América Latina e abriu capital na Nasdaq em março de 2023.

A consolidação das revendas ganhou força justamente no auge do ciclo de commodities agrícolas, momento em que produtores estavam capitalizados e o consumo de fertilizantes, defensivos e sementes crescia rapidamente. Os valores de empresas adquiridas estavam mais altos e as projeções de retorno sobre o investimento pareciam mais favoráveis.

Mas, quando o ciclo virou, como é intrínseco ao campo, o modelo começou a mostrar as suas fragilidades.

Os casos de Lavoro e AgroGalaxy são apenas os exemplos mais visíveis de um quadro de dificuldades financeiras que atingiu praticamente toda a indústria de distribuição de insumos agrícolas – e mostrou que a crise não atingiu apenas empresas gestadas na Faria Lima.

Além da dupla acima, a lista inclui a Nutrien, multinacional canadense de fertilizantes que vem reduzindo operações no Brasil; a Sinagro, sociedade entre Bunge e UPL hoje rebatizada como Sinova; a Agro Amazônia, controlada pela japonesa Sumitomo; a Fiagril, tradicional distribuidora do Mato Grosso, e a Belagrícola, ambas ligadas ao grupo chinês Pengdu.

A Belagrícola também atravessa um conturbado processo de recuperação extrajudicial para lidar com R$ 2,2 bilhões em dívidas.

“Todas tiveram algum tipo de problema financeiro nos últimos dois anos, sem exceção”, diz Eric Emiliano, sócio da L.E.K Consulting, que tem o agronegócio como uma das áreas de especialização. “Algumas [crises] foram mais públicas, como Lavoro e AgroGalaxy, mas o setor inteiro sofreu.”

Segundo Emiliano, a crise das revendas também coincidiu com um aumento expressivo das dificuldades financeiras no campo. O agronegócio brasileiro registrou quase 2 mil pedidos de recuperação judicial em 2025, segundo dados da Serasa Experian – mais de dez vezes o número observado em 2021.

Entre 2020 e 2022, o agronegócio brasileiro atravessou um dos períodos mais lucrativos de sua história recente. A guerra na Ucrânia levou esse cenário ao auge, elevando os preços globais de grãos e fertilizantes.

Com mais dinheiro no caixa, produtores ampliaram investimentos – compraram terras, expandiram área plantada e aumentaram o consumo de insumos como pesticidas, fertilizantes e sementes.

Para fundos de investimento e grupos globais, o mercado brasileiro parecia oferecer uma oportunidade única de consolidação. O país possui mais de 5 mil distribuidores independentes de insumos agrícolas, muitos deles negócios familiares espalhados pelo interior.

A estratégia era simples: comprar revendas regionais, integrá-las em plataformas maiores e ganhar escala para negociar melhor com fornecedores e produtores, com margens melhores que as dos players regionais.

O modelo tinha inspiração direta nos Estados Unidos, onde grandes redes de distribuição agrícola operam há décadas. “O plano estava sendo executado”, diz Emiliano. “O problema é que ainda havia muito caminho pela frente quando veio uma crise muito forte que abalou o setor.”

Segundo o consultor, três problemas estruturais acabaram pressionando o modelo de negócios das revendas. 

O primeiro foi a transformação do mercado global de defensivos agrícolas, principal fonte de receita dessas empresas.

Há cerca de uma década, a maior parte do valor do setor vinha de moléculas patenteadas, com margens elevadas para fabricantes e distribuidores. Nos últimos anos, porém, com o fim da patente de muitos deles, o mercado foi inundado por versões genéricas produzidas na Ásia.

“Antes era como vender um medicamento inovador”, diz o sócio da L.E.K Consulting. “Hoje, muitas vezes, é como vender um paracetamol.” A mudança reduziu drasticamente as margens de toda a cadeia.

Grandes fabricantes globais de agroquímicos, como FMC e Corteva, anunciaram reestruturações nos últimos anos justamente em resposta à pressão de produtos genéricos e à queda de preços em diversos mercados. Para as revendas brasileiras, que já operavam com margens relativamente estreitas, o impacto foi imediato.

O segundo fator foi o colapso do modelo de crédito que historicamente sustentava o setor. Distribuidores de insumos sempre funcionaram como uma espécie de banco informal do agricultor. 

Fonte: investnews