China avança para destronar os Estados Unidos, enquanto Índia jovem surge como terceiro gigante

Há mais de um século, os Estados Unidos ocupam o posto de maior economia do planeta, mas a China, que há duas décadas persegue essa liderança, encurtou distâncias e hoje é o principal desafiante. Em 2024, o PIB nominal dos EUA foi estimado em cerca de 29 trilhões de dólares, contra aproximadamente 18 trilhões de dólares da economia chinesa, o que ainda representa um terço a menos em bens e serviços comprados ou vendidos, mas com trajetória de convergência gradual e desequilíbrio crescente em outras frentes estruturais.

Em 2025, enquanto a guerra comercial iniciada por Donald Trump com tarifas entre 10% e 50% sobre produtos chineses segue influenciando cadeias globais, a China intensifica a diplomacia econômica. O ministro das Relações Exteriores percorre países do Sul Global e da África para compensar barreiras nos Estados Unidos, e em setembro de 2025 Xi Jinping recebe Narendra Modi em Pequim, buscando consolidar o país como voz do Sul Global e pilar de uma nova ordem econômica mundial mais multipolar, na qual Índia e outros emergentes ganham espaço. Pelo critério estrito de PIB nominal, os Estados Unidos permanecem à frente da China, mas a fotografia muda quando o foco passa para a produção global de bens.

A economia chinesa responde por cerca de 27,7 por cento dos bens produzidos no mundo, contra 17,3 por cento dos Estados Unidos, com Japão, Alemanha e Índia aparecendo bem atrás nessa hierarquia industrial.

Essa diferença se traduz em peso manufatureiro, infraestrutura produtiva e capacidade de escalar tecnologias em larga escala. A China tornou-se a número um quando o assunto é quantidade de bens produzidos, enquanto os Estados Unidos preservam vantagem significativa em finanças, inovação financeira e profundidade de mercado de capitais.

Na prática, a disputa pela liderança econômica global deixa de ser apenas uma corrida de PIB e passa a envolver controle de cadeias produtivas, infraestrutura crítica e poder financeiro.

Para especialistas, o quadro atual leva a um diagnóstico dual.

No campo produtivo e energético, o eixo se desloca em direção à China, que acumula capacidade fabril e tecnologia aplicada.

No campo financeiro, a avaliação é que os Estados Unidos preservam posição de comando por terem moeda de reserva global, mercado de capitais desenvolvido e sistema bancário com maior influência internacional. A China também se destaca pelos superávits externos.

O país figura no topo do ranking de saldos comerciais, com superávit próximo de 989,5 bilhões de dólares e resultado positivo com cerca de 150 parceiros.

Alemanha, Rússia, Holanda e Irlanda aparecem depois, com cifras bem menores, o que reforça a posição chinesa como grande fornecedora líquida de bens para o resto do mundo.

Esse excedente se converte em reservas internacionais robustas.

Com mais de 3 trilhões de dólares em reservas de moeda estrangeira, a China possui o maior colchão cambial do planeta, o que confere alguma proteção contra choques externos e amplia a capacidade de financiar projetos estratégicos, tanto internos quanto em iniciativas de integração com outros países.

A diplomacia acompanha os números.

Em 2025, visitas a mercados do Sul Global e da África são usadas para reorientar fluxos comerciais e reduzir a dependência de compradores ocidentais, em especial dos Estados Unidos.

O encontro de Xi Jinping com Narendra Modi em Pequim sinaliza um esforço para estruturar parcerias asiáticas que não se limitem à lógica de rivalidade, mas que reconheçam a China como articuladora de interesses do Sul Global em negociações com o Norte Global.

Índia jovem, neutralidade diplomática e multipolaridade em construção

A Índia surge neste cenário como beneficiária potencial de parte das pressões que hoje recaem sobre a China.

O país ultrapassou a marca de população da China, possui perfil demográfico jovem e opera como democracia com grau maior de pluralismo político, ainda que com desafios internos relevantes.

Na política externa, a multipolaridade funciona para a Índia, que historicamente adota postura de neutralidade desde 1947, evitando se alinhar rigidamente a blocos rivais.

Em um ambiente em que a dominação por blocos é vista como nociva, a estratégia indiana é negociar com diferentes polos de poder, extraindo vantagens econômicas e tecnológicas sem assumir compromissos exclusivos nem com Estados Unidos nem com a China.

Esse reposicionamento abre espaço para que cadeias de produção reorientadas pela busca de segurança geopolítica e menor risco regulatório encontrem na Índia uma alternativa, especialmente em setores que exigem mão de obra abundante e mercados domésticos em expansão.

Ao mesmo tempo, o país ainda precisa consolidar infraestrutura, educação e capacidade industrial para competir com a escala já alcançada pela China.

Diante desse conjunto de fatores, permanece em aberto a pergunta inicial: a China vai liderar a nova ordem global ou o mundo seguirá sem um hegemon econômico único?

O quadro que se desenha é de uma ordem mais distribuída, na qual Estados Unidos, China, Índia e outros emergentes compartilham parcelas de poder econômico, tecnológico e financeiro.

Há muitos sinais de que países como a Índia podem ganhar espaço à medida que o crescimento da China desacelera e que o custo de manter dívidas elevadas, população envelhecida e aparato de vigilância restritivo se torna mais pesado.

Em paralelo, os Estados Unidos enfrentam o desafio de conciliar liderança financeira com atraso relativo em segmentos centrais da transição energética, enquanto o Sul Global procura aumentar sua voz em fóruns multilaterais.

O resultado provável é uma ordem econômica cada vez mais multipolar, com disputas por cadeias de valor, tecnologia verde, influência diplomática e acesso a mercados.

Em vez de uma troca simples de hegemon, o cenário sugere uma redistribuição de forças, em que nenhum ator isolado consegue dominar todos os eixos de poder ao mesmo tempo.

Fonte: clickpetroleoegas